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quarta-feira, 24 abril, 2024

O novo coração do Faustão e a eficácia do SUS

Transplante do apresentador Fausto Silva é um sucesso e comprova a seriedade do sistema público de transplantes do Brasil

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Imagem: reprodução

Os primeiros boatos surgiram logo após o anúncio de que o apresentador Fausto Silva, 73, receberia um novo coração, neste domingo (27). Por malícia ou total desconhecimento sobre a lisura do maior sistema público de transplantes de órgãos do mundo, espalhou-se a tese de que Faustão teria furado a fila do SUS. A fake news foi rebatida pelo Ministério da Saúde e pela família do apresentador. O paciente se recupera do procedimento, que teve 2h30 de duração e foi considerado um sucesso pela equipe responsável.

Faustão está internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde deu entrada no dia 5 de agosto de 2023. O quadro era de insuficiência cardíaca, com indicação para transplante de coração. Por isso, ele foi colocado na fila de espera para o procedimento, como todo brasileiro que se encontra em condições semelhantes de saúde.

Familiares, amigos e a população em geral passaram a acompanhar, com apreensão, uma espera que não tinha hora exata para terminar. Um coração compatível, assim como qualquer outro órgão, pode surgir em questão de dias, semanas ou meses. Depende de critérios absolutamente técnicos. Entre os quais, tipagem sanguínea, compatibilidade de peso e altura, compatibilidade genética e critérios distintos de gravidade. Leva-se em conta também a distância e o tempo de deslocamento entre o local de coleta do órgão e os prováveis receptores.

Feito o diagnóstico de morte encefálica, a equipe responsável pelo transplante inicia a cirurgia de retirada. Cada órgão tem um prazo máximo de duração fora do corpo. Para o coração, esse período – chamado de tempo de isquemia fria – varia entre 4 e 6 horas. Se a equipe de saúde prevê que o deslocamento levará mais tempo até o primeiro receptor compatível, passa-se para o próximo da fila. Não há margem para erros, sob risco de perda do órgão.

No caso de Faustão, além de todos esses critérios terem sido seguidos, constatou-se que o prognóstico do apresentador era um dos piores entre os prováveis receptores. A insuficiência cardíaca havia se agravado, e o critério “urgência” passou a ter um peso maior.

Em nota, após os boatos de que o apresentador teria furado fila, o Ministério da Saúde enfatizou o estado muito grave de saúde de Faustão. E reforçou que a lista para transplantes é única, tanto para os pacientes do SUS quanto para os da rede privada. “No primeiro semestre de 2023 foram realizados 206 transplantes de coração no Brasil, o que representa aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado”, acrescenta a nota.

Nas redes sociais, o filho do apresentador, João Guilherme Silva, rebateu mensagens de que seu pai teria sido privilegiado. “Não façam ilações ou acusações irresponsáveis de furação de filas ou interesses escusos”, publicou João.

Exemplo para o mundo

No Paquistão, por exemplo, trabalhadores rurais que contraem dívidas com os donos das terras frequentemente vendem um de seus rins no sistema de saúde local para conquistar a liberdade. Eles se cadastram em uma lista clandestina e, quando surge um receptor compatível, assinam um “termo de doação”. Os “doadores” submetem-se às cirurgias de retirada, muitas vezes realizadas sem a segurança necessária. Ao final, saem com uma cicatriz abaixo das costelas e valores que variam de 400 a 3 mil dólares, que são entregues a seus credores.

Já no Brasil, a legislação e a dinâmica supervisionada pelo SUS blindam doadores e receptores contra essa possibilidade. O Sistema Nacional de Transplantes (SNT) é responsável pela regulamentação, controle e monitoramento dos procedimentos de doação e distribuição dos órgãos. Todas as informações referentes a possíveis doadores são inseridas em um cadastro único, à prova de fraude.

Rede logística

Em números absolutos, apenas os Estados Unidos realizam mais transplantes que o Brasil. Em contrapartida, o sistema de transplantes brasileiros é o maior do mundo sob gestão de uma rede pública de saúde. Ambulâncias públicas e privadas, aeronaves militares, helicópteros policiais, batedores de motocicleta e acordos com companhias aéreas são apenas alguns componentes de uma complexa e extensa rede logística, que funciona em perfeita sincronia.

O gargalo está justamente na falta de órgãos, em decorrência de uma questão cultural. Muitas famílias, quando questionadas pelo profissional de saúde no momento da morte encefálica, resistem a autorizar a doação. Nesse sentido, categorias como as que compõem o SindSaúde exercem uma missão nobre. Afinal, o acolhimento aos parentes que recebem a notícia de uma morte encefálica é um dos papéis de quem presta o atendimento na ponta. É parte do cotidiano contribuir com a garantia da base emocional para que os familiares do paciente tomem as decisões mais difíceis de suas vidas.

Faustão e o SUS

Sendo um dos maiores nomes da comunicação brasileira, Faustão acumulou muita riqueza. Enquanto esteve na TV Globo, foi o apresentador mais bem pago do país, somando salário e rendimentos com publicidade. Os valores já divulgados na imprensa sobre o patrimônio do apresentador variam a depender da fonte. Segundo a coluna de Ricardo Feltrin, do UOL, Fausto Silva tem um patrimônio avaliado em R$ 1,1 bilhão. Um jornalista próximo ao apresentador estima a fortuna em 10 vezes essa quantia.

Não há dúvidas, portanto, de que Faustão tem condições financeiras de custear os procedimentos médicos mais caros do mundo, seja para si, seja para familiares. Cogitou-se, inclusive, uma viagem aos Estados Unidos, a fim de realizar um transplante ao custo de mais de R$ 8 milhões. Não precisou. Faustão recebeu um coração dentro do sistema público de saúde do Brasil.

O SindSaúde enaltece e valoriza o trabalho de todos os profissionais de saúde envolvidos direta ou indiretamente nos transplantes. E coloca-se à disposição da sociedade na conscientização sobre a importância do debate acerca da autorização da doação de órgãos. Esse assunto deve ser discutido sem receios, sobretudo no âmbito familiar. É fundamental manifestar essa vontade em vida e deixá-la absolutamente clara aos parentes.

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