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quinta-feira, 6 agosto, 2020

O poder, a loucura e a claque

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Marli Rodrigues
Marli Rodrigueshttps://sindsaude.org.br/
Diretora-Presidente do SindSaúde-DF

Seria normal, em um protesto realizado em época de pandemia, um presidente pedir que as pessoas não se aglomerem por questões de saúde pública. Mas, aqui no Brasil, o inexplicável é que o Presidente da República, abençoado pelas urnas, estava na tal manifestação para discursar para aquelas pessoas. Fez uso da palavra e foi coro para a turma.

Não se pode chamar de povo e de massa a aglomeração pandêmica vista no domingo (19), em Brasília e outras capitais, noticiada em todo o mundo. Brancos, donos de carros, inclusive alguns de luxo.

Faixas com mesma cor de tinta e mesmo tecido, indicando uma produção em massa. E sinalizando que tudo foi muito ensaiado. O que leva o povo, o de verdade, a desconfiar também que tudo pode ter sido combinado com ele, aquele que deveria ser o chefe da Nação. Quem no mundo político, não se assustaria ao ver as frases naquelas faixas?  Essa manifestação deve ser muito bem investigada. Foi uma manifestação agressiva e com motivações antidemocráticas. Atacou a Constituição e os organizadores precisam ser resonsabilizados de acordo com as leis vigentes.

Qualquer político rechaçaria de pronto o pedido da volta do AI-5 e o fechamento do Congresso Nacional. Porque o presidente do Brasil não fez isso naquele momento? E, pior, ele foi lá para chancelar a intenção daquela aglomeração pandêmica.

Loucura

Os gritos pediam o AI-5, Ato Institucional nº 5, o mesmo de 13 de dezembro de 1968, umas das expressões mais cruéis da ditadura militar brasileira. Será que quem carrega tal fardo nas mãos, com sorrisos e bandeiras do Brasil no pescoço, em 2020, sabe o que está pedindo?

O Ai-5 autorizou o presidente da República a decretar o recesso do Congresso Nacional, intervir nos estados e municípios e cassar mandatos parlamentares, suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão, o confisco de bens considerados ilícitos e suspender a garantia do habeas-corpus.

O marco de um Brasil autoritário em longo prazo. Censura aos meios de comunicação, demissão de professores universitários e a tortura como prática comum entre os agentes do regime.

Os mesmos que pedem o fim do isolamento social, única forma provada contra a proliferação do Covid-19, alegando o direito de ir e vir e a liberdade, também pedem a volta da sombra da ditadura, a intervenção militar, a perda de direitos. Hipocrisia, incoerência e desconhecimento.

“Não queremos negociar nada”, afirmou Bolsonaro em cima da caçamba de um carro do Exército sob o céu de uma Brasília, que hoje completa 60 anos e que teme assistir, mais uma vez, a história cruel se repetir. Um presidente que desrespeita até seus apoiadores, motiva o irracional, questiona o inquestionável e normaliza a ignorância.

Limites

Autoridades dos outros poderes respondem com notas e mais notas de repúdio, logo contra um líder que não interpreta bem as palavras, que ridiculariza o texto, que pouco entende de leitura. Não há mais tempo, não dá mais para esperar, aliás, esperar o que de Bolsonaro?

O que acontecerá nos próximos dias? O presidente tirou o foco do Ministério da Saúde e puxou os holofotes para si. Com que objetivo? Essas notícias ganham as manchetes e comentários dos veículos de imprensa. A discussão que antes era do Ministério da Saúde, orientando o povo sobre COVID-19, hoje se voltou para ele e foi reaberta uma discussão sobre AI-5 e golpe militar. Algo que já estava sepultado por meio da nossa Constituição

O presidente ainda não entendeu que não está mais em campanha política. Que agora deveria se comportar como um Presidente da República, preocupado com a saúde do povo e a defesa da vida.

Trocando em miúdos. Mudou-se o foco. Ao invés de discutir e combater o coronavírus, o debate agora é o AI-5. Ao invés de ter o MS falando ao vivo com a população brasileira, orientando e dando satisfação do que está sendo feito e preparado, tivemos as tristes imagens de um presidente com uma tosse seca, em cima de um carro militar, sem máscara e tocando nas pessoas, como se estivesse me plena campanha eleitoral.

Independência

As instituições tratam o presidente como se ele fosse um adolescente empolgado com um automóvel novo. Os poderes são independentes, mas se complementam e conversam. Não podem aceitar um adolescente que vive errando e não é punido. A única pessoa que se aproveitou daquele momento de manifestação foi o presidente.

O Brasil precisava de um presidente sério, temos um presidente do zigue-zague. Fala algo pela manhã e desmente à tarde.

Ninguém esperava que teríamos que escrever textos contra a ditadura novamente. Não em um País que experimentou o gosto amargo de 21 anos de regime militar e sabe o prazer da democracia e da liberdade. Que ela permaneça.

 

Marli Rodrigues
Presidente do SindSaúde-DF

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